12 janeiro 2020

Homem, parafuso, termômetro, swipes...

Em 1888 (no periódico iugoslavo "Star Mali" ou "Starmali") foi publicada esta HQ de uma certa valsa em que o dançarino, de tanto girar, se transforma em um parafuso:

Via Projekat Rastko
Claramente plagiada desta HQ de Cândido Aragonez de Faria, publicada em 1883, e já tratada anteriormente aqui neste blogue:

Em 1880 Bordallo Pinheiro publicou em Portugal uma HQ bem semelhante:

Via Topfferiana e Hemeroteca Digital de Lisboa
Mas provavelmente Faria se inspirou em outra HQ de Bordallo Pinheiro que foi publicada aqui no Brasil, no periódico "O Mosquito" no ano de 1877.  Os dois trabalharam no mesmo periódico.

Via HQ Retrô
Talvez a metamorfe de homem em parafuso mais antiga que se tenha, e talvez a inspiração de Bordallo Pinheiro, seria essa de W. Reynolds na revista Judy no ano de 1871:

Via HQ Retrô

Mas um outro "encontro" entre Faria e Bordallo Pinheiro aconteceu.

Em "El Mosquito" de 20 de junho de 1880, quando Faria trabalhava para periódicos argentinos, saiu essa charge em forma de um termômetro, intitulada "Los que rien y los que lloram - BOBOMETRO":

Via Trapalanda/BN Argentina - acessado em 07 de janeiro de 2017 às 01:15h - ou  via Internet Archive Wayback Machine
Suspeito que a arte acima é de Faria por dois motivos, a saber:

1 - Faria fez essa outra charge "METEOROLOGIA POLÍTICA - THERMOMETRO CONSERVADOR / THERMOMETRO LIBERAL", em 12 de janeiro de 1878 (o ano é este mesmo, apesar de o site da BN dizer 1977 - a data está no cabeçalho da segunda página), no periódico "O Fígaro" (do Rio de Janeiro, não o do Rio Grande do Sul que também era do Faria):

Via Biblioteca Nacional
2 - Em 14 de outubro de 1876 Bordallo Pinheiro fez uma charge com o título de "O ASSOBIOMETRO", do mesmo naipe dessas acima; e como Faria gostava de se "espelhar" em Bordallo e em Borgomainerio...

Via Biblioteca Nacional
E como sempre, Bordallo não é o pioneiro, o troféu provavelmente deve ser de Frank Henry Temple Bellew (1828 India - 1888 USA) que publicou em janeiro de 1860, na revista Harper's New Monthly Magazine - página #286, essa tragicômica HQ da vida de um sujeito que bebe até morrer - "The Inebriometer":

Via HathiTrust

07 janeiro 2020

Brocoió e Paudágua

Continuando com as desventuras...

Ao sairem do batizado os dois bebem e caem num esgoto; fizeram tanto baderna que foram retirados por transeuntes e enquanto estavam sendo encaminhados ao distrito policial o Paudágua (que falava) ao ver Brocoió desmaiado disse ser peste bubônica o mal que tinha acometido o parceiro, todos fugiram; aqui parece ocorrer uma descontinuação na série pois os dois surgem pedindo esmola de repente; com a grana apurada se refestelaram em um restaurante e Brocoió saiu de quatro, Paudágua explicou que o motivo seria a sopa de tartaruga; foram pra casa (que era um barril) e foram despertados pelo carteiro; era um convite para que Brocoió fosse o novo instrutor de uma banda alemã; bom, mais nonsense impossível!
Seguem capítulos surgidos na edição 168 até a edição 174 do ano de 1911 na revista Careta:






05 janeiro 2020

Pequena Cronologia da HQ - parte 16

Segue a série...

1780
Uma performance de Marina Rossi

1781
Cruz com alguns momentos da vida de Cristo

1792
Progresso da Paixão - artista John Nixon (? - 1818 ?) - gravador Isaac Cruikshank (1756/1764 ? - 1811 ? - UK - marido de Eliza e pai dos artistas George e Robert)

Via Library of Congress
1793

Sapo se metamorfoseando em Apolo "de acordo com as idéis do filósolo Lavater" - artista anônimo - França

Via Library of Congress
1794
Belo livro escrito e ilustrado por William Blake - não é HQ.

1797

William Pitt X Charles Fox - artista James Gillray (1756 - 1815 - UK)

Via Real Museu Holandês
1799
Charges em tiras - quase HQs - Rowlandson

Esquetes do artista Kitao Masayoshi 北尾政美 (1764 - 1824) também com potencial pra serem HQs.

1800

Democracia, ou, uma esquete da vida de Bonaparte - artista James Gillray.

Via British Museum

No mesmo ano foi publicada a "Vida e morte de Johnny, na Jamaica" - atribuída ao artista James Sayers (1748-1823 - UK).

Via Museu Real de Greenwich

31 dezembro 2019

"Happy Hooligan" e "The Katzenjammer Kids" na revista "Fon-Fon"

Happy Hooligan foi criado em 1904 por Frederick Burr Opper (1857 - 1937 USA).
Aqui no Brasil foi publicado em O Tico-Tico no ano de 1924, mas teve sua provável estréia em 1912 na revista Fon-Fon.  Se chamava "Mister Scháw" e durou até 1913.

Ed. 41 do ano de 1912
Ed. 43 do ano de 1912
The Katzenjammer Kids foi criado por Rudolph Dirks (1877 - 1968 - Alemanha/USA) em 1897.
Após uma batalha judicial com Hearst (de 1912 até 1914), Dirks teve que alterar o nome da tira para
"Hans und Fritz" e um pouco depois - não sei precisar quando - alterou novamente para "The Captain and the Kids".
À partir de 1914 o artista Harold Hering Knerr (1882 - 1949 USA) teve o privilégio de dar continuidade à tira com o nome 'original'.
As duas tiras 'iguais' continuaram concorrendo entre si por vários e vários anos.
Em 1929, aqui no Brasil, a tira - desenhada por Knerr - foi publicada pela Vecchi com o nome de "Diabruras de Pepito e Juca".
Muito tempo depois foi publicada pel'A Gazetinha (com o nome de "Os sobrinhos do Capitão Fagulha" em 1936 - também com o traço do Knerr).

Ed. 129 de A Gazeta Infantil aka A Gazetinha
No Guia dos Quadrinhos é dito que foi publicada no Globo Juvenil, entre outros.

Mas a estréia da tira por essas bandas (desenhadas?) é bem provável que tenha ocorrido no ano de 1912 - ainda não encontrei publicação anterior no Brasil - também na revista Fon-Fon.  E também durou até o ano de 1913.  Detalhe, a tira era com arte do autor original:  Rudolph Dirks.  Foi batizada de "Bibi e Bobó".

Ed. 48 do ano de 1912
Ed. 3 do ano de 1913 - aqui se percebe a assinatura, meio borrada, no segundo quadrinho

28 dezembro 2019

Pequena Cronologia da HQ - parte 15

Segue a série...

1714

Bem que poderia ser uma HQ... mas são só alguns pontos da cidade.

1720

Aqui também bem que poderia ser uma HQ... mas pelo menos há o uso de balões de fala.

Mas nesse mesmo ano surgiu a HQ - John Law/Jan Lauw - vida e percalços (aqui parece ser uma minibiografia desse que deve ter sido alguma espécie de investidor com vários momentos de bancarrota) - artista anônimo - Holanda

Via British Museum
1726

O curioso caso de Mary Toft - nesta fake news, Mary dizia ter parido vários coelhos.  O caso foi até chargeado por William Hogarth, e virou até livro no ano seguinte.

Via The Map House e British Museum
1730

Mais uma outra versão da fábula O velho, o menino e o burro - agora em cores, num abanador de muito bom gosto - artista anônimo - UK.

Via British Museum

Circa 1749 esta obra de proto-ficção-científica onde um voyeur se serve de um molusco para se tornar invisível ou bem pequeno e assim poder matar seu vício...  O Japão tinha muitos desses livrinhos que talvez evoluíram pra HQs com o tempo.

1772

E por falar em Japão este pequeno exemplo de HQ onde dois homens caçam uma mulher (escrava?) - arte atribuída a Kitao Shigemasa 北尾 重政 (1739 - 1820 - Japão)

Via Library of Congress
1775

Alguns trechos da vida de José do Egito - atribuído a Johann Daniel Schmied

Via Free Library of Philadelphia

25 dezembro 2019

Um ensaio do pesquisador David Kunzle sobre o livro do pesquisador Athos Cardoso

O livro é As aventuras de Nhõ-Quim & Zé Caipora:  os primeiros quadrinhos brasileiros 1869-1883.
Você pode baixar o arquivo PDF no site do Senado Federal.
O ensaio de David Kunzle foi publicado na primavera de 2003 pelo Internacional Journal of Comic Art (são publicações semestrais, uma na primavera outra no outono), ao todo foram oito páginas de resenha - da página 377 até a página 384 do volume 5.1 onde o 1 trata do semestre da publicação.
Em conversas via e-mail com Athos Cardoso tive o prazer de receber, em 25 de novembro de 2016, este ensaio traduzido por Ricardo (filho de Athos):


 Crítica de David Kunzle
A origem da história em quadrinhos no Brasil deve ser totalmente desconhecida dos cognoscenti (apreciadores) e, este livro, escrito em português, teme-se que tenha pouca distribuição fora do Brasil e da península Ibérica. Isto é uma pena porque suas descobertas propiciam uma abordagem para o tema em uma perspectiva nunca vista antes, e o livro, finamente elaborado (com a inovação de miniaturas das tiras no tamanho de selos, no fundo da página) merece uma tradução das doze páginas de uma relevante introdução bem como das legendas dos desenhos. Em sua publicação o livro recebeu grande repercussão na mídia brasileira com artigos de pagina inteira e meia pagina nos principais jornais do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Maceió.
A descoberta de Zé Caipora derruba a suposição de que o desenvolvimento de quadrinhos de aventuras exóticas (Tarzan em diante) é uma invenção americana do século XX. Este livro, publicado pelo senado, lançado e editado por um professor de comunicação de massa no Brasil que é também coronel aposentado do Exército Brasileiro nos presta um imenso serviço, comparável de certo modo ao de Antonio Martin, o pioneiro no estudo dos quadrinhos espanhóis O tesouro que Eichler Cardoso encontrou faz nos imaginar se não há outros a serem descobertos em publicações de outros países da América Latina.
O gênero “histórias de aventuras” (ou melhor, “histórias de aventuras exóticas” já que na verdade, muitas das primeiras histórias em quadrinhos são mini histórias de aventuras) esta aqui completamente definido, e sou tentado a dizer, amadurecido em sua origem em no mínimo quatro aspectos: variedade de aventura, ambientes exóticos, extensão e seriedade (sem caricaturas) de tom e estilo. Pode-se adicionar um quinto aspecto que é essencialmente a novela em vez da história em quadrinhos, isto é relativa coerência e consenso de enredo. Quanto ao tamanho, em meu livro History of the 19th Century Comic Strip, Arrisquei que o recorde europeu foi de dois quadrinhos espanhóis: Mecácis “Wedding Day” (cerca de 306 desenhos espalhados por 17 pastas,1885), seguido por “Extraordinary Voyages” de Cilla ( 241 desenhos, 1888-89). Zé Caipora de Angelo Agostini não só é anterior a esses dois como os supera quantitativamente: 378 desenhos publicados entre 1883 e 1886. Entre 1901, quando foi publicada uma terceira edição, e 1906 mais 518 desenhos divididos em 75 capítulos foram criados. Isto é incrível e sua originalidade parece ter escapado até agora da história básica da caricatura brasileira. A História da Caricatura no Brasil (1963, 4v) de Herman Lima menciona Zé Caipora de passagem, sem reproduzir um único desenho seu.
Periódicos em jornais humorísticos tendiam a favorecer breves anedotas ou piadas extensas ocupando páginas inteiras e até pequenas novelas, no estilo de Maupassant, imprimiram-se dois ou três volumes, não necessariamente sucessivos. Por volta do ano de 1886 Agostini não só aumentou em tamanho os periódicos de sucesso publicados por Mechacis, mas também qualquer história ilustrada publicada até o momento em forma de álbum, que favorecia tamanhos maiores do que os periódicos (jornais), e sempre foi assim desde Topffer, cujas maiores histórias trazem entre 200 e 220 desenhos. O mais longo de Wilhelm buch, a trilogia The Knopp (1875 – 77) possui 208 desenhos.
Angelo Agostini nasceu em 1843 e passou a infância em Piemont, veio jovem para o Brasil, trabalhou na estrada de ferro e fundou diversos jornais em São Paulo e Rio. Faleceu em 1910. Seu papel como fundador da história em quadrinhos brasileira é reconhecido pelo troféu Ângelo Agostini dado pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo, e o dia 30 de Janeiro foi escolhido o Dia do Quadrinho Nacional, pois, nesta data em 1869, Angelo Agostini publicou aquela que é tida como a primeira história em quadrinhos do Brasil. É correto afirmar que ele sabia alguma coisa da língua e da tradição francesa dos quadrinhos e caricatura. (seu italiano tinha pouco a oferecer no Séc XIX.). A cultura Francesa era a dominante em toda a América Latina. O estilo de Agostini aproxima-se, talvez ao de Cham em seu auge, ainda que o artista ítalo brasileiro mostre ser influenciado por Topffer (Zé Caipora usando posturas elegantes, Jabot, pag 65) nas tendências cômico suicidas de seu herói e, acho, em inspirações generalizadas.
Para sustentar a afirmação que os quadrinhos de Agostine são os primeiros de aventuras exóticas bem como a inovação de sua abordagem, vale rever brevemente alguns antecedentes. Cryptogame de Topffer (primeiro desenho de 1830, publicado em 1845) leva o herói de Geneva ao estrangeiro a bordo de um baleeiro norueguês e no estomago de uma baleia, do Ártico até a Argélia, chegando finalmente a França. Viagens cômicas viraram especialidades dos seguidores de Topffer na França, Cham, na metade do século, quando as estradas de ferro e as atrações turísticas levaram as pessoas a viajar mais longe e em maior número como nunca antes. Cham, naturalmente é consistentemente cômico, como Agostini, após os 11 capítulos iniciais de Zé caipora não é, uma diferença essencial, e as ambições globais dos heróis de Cham (que ele gosta de apresentar como autobiografia) talvez reflitam as ambições globais de uma burguesia se enriquecendo em aventuras imperialistas, o Brasil com o olhar para o exterior e se industrializando em 1880 como a França o fez em 1840. O domínio de Agostini é menor e restrito a cidade grande e a regiões indefinidas do interior brasileiro, mais concentrado e focado, sem limites no humor ou mudança nacional e geográfica.
A busca de Agostini foi certamente elevar o nível da novela, um gênero que nunca buscou tal ampliação e geralmente desprezado pelos críticos, as histórias em quadrinhos no sec XX ultrapassaram a novela em popularidade, mas no sec XIX ainda procuravam se equilibrar, por muitas gerações foi incapaz de firmar se como obra de arte para competir com a novela. Pode-se notar, no entanto certa ambição em direção a uma pretensão de Cham de uma novela completa de 121 “capítulos” cada um com seu próprio epigrafo e em títulos grandiosos remanescentes do barão Munchausen, cujas aventuras extraordinárias e extremamente populares publicadas por toda a Europa quiseram ser transformadas em histórias em quadrinhos, mas nunca foram além de uma ilustração convencional.
Agostini, procurando por credibilidade, empenhou-se contra a tradição de absurdos das histórias mirabolantes de Munchausen das quais Cham participa com seu Travel Impressions of M.Boniface , ex deserter of the 4th,5th e 10th. His Excursions on Earth, His Head and Nose etc.(1844) leva o leitor para a Inglaterra e Irlanda para satirizar os costumes locais, no seu Journey from Paris to America Pursued to Le Havre Inclusive (1844 -45) conta sobre o sofrimento das viagens em carruagens e ferrovias, na sua Lithografic Impressions of a Jorney by M. Trottman and Cham (uma duradoura série de episódios em mais de 20 volumes do Charivari entre novembro e dezembro de 1846) com sua continuação Nouvaux Voyages focado nas tolices dos estereótipos nacionais de vários países Europeus incluindo Turquia e Russia. Seu conto Voyages d’Agrément 1849 que se passa na Argélia (recentemente colonizada pelos franceses) é uma sátira ao turismo. Durante o período das revoluções de 1848 e especialmente em seu conto Jouney Round the World of Captain Cham and His Umbrella (1852). A sátira de Cham se torna uma paranoia política com falsas prisões e estadia na cadeia, lugar comum em todas as suas histórias, e uma característica das histórias do séc XIX presente em ambas as histórias de Nho Quim e especialmente Zé Caipora. Próximos deste tema estão os Episodes From the History of a Savage Nation; or the Beneficts of Civilization (1846) de Cham, onde o homem branco encontra o índio pele vermelha, contudo, diferentemente de Agostini Cham esta inteiramente comprometido em transformar o encontro no qual os índios são corrompidos pela “civilização” em uma sátira da vida politico e social francesa, enquanto Agostini concebe o aterrorizante encontro de Caipora com os índios brasileiros parcialmente como uma demonstração do seu heroísmo e, parcialmente como uma antítese moral entre a civilização e a barbárie. O heroísmo de Zé caipora, sobrevivendo e lutando contra índios e onças é real, idealiza, na idade de ouro do imperialismo europeu do qual a visão de Cham é a de um explorador descrente, a luta generalizada Euro Americana contra o “selvagem”. O The Labors of Hercules (1847) de outro imitador de Topffer, o jovem Gustave Doré, pode ser visto dentro deste contexto não somente como uma paródia da mitologia antiga, mas também como um desprezo das aspirações do tipo de heroísmo que Agostini leva tão a sério. Ele tem que resistir a uma tradição que era virtualmente um reflexo instintivo na caricatura, evidente em “Sloper in Savage Afica” (1872) de Marie Duval até “Colonization Epidemic”(1886) de Albert Robida e “Let’s Civilize Africa” (1893) de Camilef, todos (e muito mais) ridicularizam o homem branco na África.
Talvez seja estranho que a Bretanha, a principal nação imperialista não produziu histórias de aventuras exóticas além da série satirizando o barbarismo de Scott (MacNab of that Ilk) e a tentativa rara em um enredo crucial que tem muito a ver com Agostini: O salvamento do homem branco pela heroína mulher indígena, o qual serviu como um paliativo para o estereotipo da crueldade indígena. ”“Mr Touchango Jones” (Man in the Moon, 1848) de Albert Smith e H.G. Hine, é impulsionado para a costa de Quashybungo supostamente por problemas com a esposa em casa (não muito diferente de Cryptogame), mas nesta bem politizada história obviamente com referencia a pesada repressão europeia originada pela imigração na época. Depois de o herói ser salvo de um leão faminto por seu guarda chuva, que ele recuperou de um macaco, somos deixados em suspense pendurados no abismo, emprestado das novelas seriadas como mostrado conscientemente por uma nota conclusiva: “com tal fuga providencial o deixamos pendurado pela cauda do macaco por trinta dias” Como Caipora, Jonas é salvo da morte certa (cozido em um caldeirão) por uma rainha local que por ele se apaixona. Ele então passa pelas aventuras de Topfferian com uma baleia e um balão. A antítese do homem branco selvagem expande uma oposição cidade campo presente na cultura europeia por séculos, e a transição dos trabalhos iniciais de Nhô Quim de Agostini e a primeira parte de Zé Caipora com sua comédia inteiramente urbana, para a exótica selva brasileira que é o cenário principal de Zé Caipora recaptura a mudança da caricatura e das histórias em quadrinhos da cidade para o interior. Este “ Choque Cultural” é a essência da longa série de história cômicas “Histoires Campagnards” de Parisian Leonce Petit publicadas no Journal Amusant, durante a década antecedente a Zé Caipora.
A referência mais próxima, em termos de estórias de aventuras exóticas deve ser a do trabalho Espanhol mencionado acima “Viajes Extraordinários de Ramón Cilla”, publicado pelo Madrid Cómico 1888-89, não muito depois da primeira fornada de Zé Caipora e possivelmente inspirado nela. Uma comparação detalhada não pode ser feita aqui, é suficiente dizer que ainda que aborde temas similares: selva, animais perigosos e nativos (Cilla, African Negroes) o tratamento é totalmente mais sereno e com um estilo verdadeiramente caricatural, como não é Agostini.
Eichler Cardoso, em sua curta introdução, não está interessado com tais antecedentes gráficos, nem com o contexto político da luta para acabar com a escravidão no Brasil, na qual Agostini estava amplamente engajado ou a expansão para o oeste selvagem, onde em todas as histórias aparecem a questão das experiências reais de submissão do nativo selvagem. Tais contextos pareceriam para mim essenciais para uma melhor compreensão da obra no que diz também em uma tradição literária que poderia ter sido descrita (o autor me envia um e mail informando que Agostini admirava Atala, a obra de Chateaubriand, provavelmente a edição ilustrada por Dore do qual há ilustrações semelhantes em Agostini, e teria achado o tema da princesa índia salvando o herói no famoso romance Iracema de José de Alencar) Eichler Cardoso esta, sobretudo interessado nas circunstancias mais imediatas de conteúdo e publicação das próprias histórias, que necessitavam de reconstrução de páginas danificadas.
Quanto as histórias, voltamos para um breve resumo. Nas Aventuras de Nhô Quim e as Impressões de uma Viajem a Corte. Publicada mensalmente no jornal semanal Vida Fluminense entre 30 de janeiro de 1869 e 8 de janeiro de 1870, os primeiros nove capítulos são de Agostini os cinco restantes, no mesmo estilo, são de Candido de Faria, com um término inconclusivo, obviamente não esperado. Há pequenas legendas descritivas (as de Zé Caipora são maiores) escritas a mão no original, mas reproduzidas tipograficamente nesta cópia, como nas ultimas edições de Caipora. A escrita a mão das legendas era mandatório pelo fato de os desenhos serem litografados, uma técnica que não permite o uso da tipografia (a tradição europeia era usar a xilografia (gravação em madeira para as ilustrações, um bloco de madeira por vinheta, o que não permitia uma composição tipográfica)
Nho Quim (abreviação de Senhor Joaquim) é o herdeiro de 20 anos de uma rica família rural que parte em busca da sorte na cidade grande. Após alguns típicos incidentes na viajem de trem, ele passa por vários contratempos nas ruas apinhadas da cidade, que levam a sua detenção e prisão. Acidentes de trânsito, lutas e dano a propriedade compõem a maior parte do início da história que em algum momento torna-se repetitiva em uma excessiva acumulação Topferiana. O desfile a esmo de acidentes e ocorrências absurdas, um lugar comum nos histórias em quadrinhos do séc 19 encaixa em temas familiares: Os sofrimentos do inocente no estrangeiro, o caipira na cidade perigosa e hostil que prontamente se envolve em uma série de tipos e situações sociais. A tentação sexual solidificando se na farsa, sempre na cama errada, uma insinuação de sedução, e o roubo total e virtual (sombras da antiga iconografia dos séculos 16 e 17 do filho pródigo), é básico do quadrinho cômico em várias mídias. O travestismo de Topfferian está aqui destacado no absurdo do herói efetivamente ser proposto no que seria seu traje sedutor, alguns preferem o estilo picante, por um pretendente idoso (um inglês). O herói repetidamente vai para a prisão onde é deixado quando a história é suspensa. Tecnicamente há pouca coisa nova: Uma série de média perspectiva, monótona para os nossos olhares e lenta para os padrões europeus, uma vez atenuados pela visão de perto da face atônita do herói, e a inclusão de um grande retrato que deve ser de um amigo ou um profissional conhecido do artista.
Os movimentos lentos, ou redução do tempo de rastreio do movimento, talvez influenciado por Wilhelm Bush cujo trabalho surgiu em uma edição espanhola em 1881 é elevado nas Aventuras de Zé Caipora publicada primeiro em folha dupla na Revista Ilustrada (23 capitulos 1883-1886), e culminando em um álbum, como era costume, no fim daquele período. Este magazine é citado por Cardoso como sendo de grande circulação, 4000 assinantes, o que é pouco para os padrões europeus. Em 1901 uma “terceira edição” foi publicada em Dom Quixote adicionando 11 novos “capítulos” sendo redesenhados com modificações dos anteriores e usando legendas tipográficas. Em 1905 -06, 40 capítulos novos foram publicados, na revista O Malho elevando o total para 75. Simultaneamente, uma quarta edição dos 35 primeiros capítulos foi publicada na forma de álbum. Na década posterior a 1906 a criação de Agostini foi transformada em quatro peças, dois filmes mudos, e canções populares. Zé virou um herói nacional, um mito. Tudo isso antes de Tarzan aparecer nas histórias em quadrinhos em 1928/29.
Treze anos depois, Zé Caipora encontra-se passando ridículo na selva urbana, é como se Jim simplesmente se transformasse em Joe, ambos moços de família emergentes que inicialmente assumem posturas como um romance aristocrático interrompido por um acidente na mesa de jantar. Ele é preso (as manchas de vinho nas roupas são confundidas por sangue), luta com a polícia, foge, causa mais acidentes ridículos, sua prisão em um tambor de carnaval é um reminiscente da fixação de Abbe a sua viga em Topffer Cryptogame. Os médicos briguentos que cuidam de seus ferimentos o abandonam quando descobrem que ele não tem nenhum dinheiro, recusado por sua dama amada, Zé pega um navio e sucessivamente tenta, imagina e finge suicídio (tudo remanescente dos heróis de Topffer) trazido para sua amada em um estado deplorável de afogado, ele compromete novamente quando um muco horroroso escorre do seu nariz, isto em um episódio prolongado com seis desenhos, impensável na ilustração europeia da época. Há mais problemas no quarto de uma criada negra, com a polícia e como suspeito de um roubo e todo o tipo de fugas e perseguições. Zé volta para a prisão (ou quase) antes da humilhação final ao ser visto em público com terríveis pústulas.
Este é um momento de transição (cap 12) onde o herói (e o autor) decidem que chegou o momento de dizer basta. Zé parte para o interior em uma mula ao encontro de um amigo por uma trilha cheia de perigos escondidos, onde é sucessivamente atacado por cobras, porcos, macacos e finalmente por uma onça. O encontro com esta elegante e temível criatura simbólica ocupa, como nos quadrinhos de Tarzan, um tratamento mais extensivo, não menos do que quinze desenhos, mas a maneira que o herói encontra para mata-lo é vergonhosa e inacreditável. Capturado pelos índios, salvo de uma morte horrível por Inaiá, a linda filha do cacique, solidária porque antes já havia sido capturada pelos brancos. Os dois são perseguidos e deixam os inimigos mortos aos montes. Novas aventuras incluem uma caverna, de onde escapam usando cordas, um tatu (que eles comem), lutas em pontes e ravinas, muitos afogamentos de índios, e o salvamento de Inaiá da morte por um triz. Após a construção de abrigos no estilo de Robson Crusoé, os amantes são mostrados dormindo lado a lado e Inaiá, sempre virtuosa bem como corajosa, reza pela alma de seu pai que queria mata-la. Toda a sequencia termina em 1886 em uma espécie de suspense literal: O noivo índio de Inaiá em uma elevação, observando vingativamente a fumaça proveniente do abrigo dos fugitivos abaixo.
Reassumindo ininterruptamente 15 anos depois em 1901, Agostini tem o noivo índio de Inaiá Cham Kham encontrando sua prometida, porém é salvo de uma cobra gigante por ela e Zé, depois de ter seus ferimentos cuidados e ter sido alimentado reconcilia com seus antigos inimigos. Há muita caça de animais exóticos, destacadamente pássaros Jacus, uma paca e um enorme tamanduá que agarra o herói em um efeito cômico acidental, como um tapete antropofágico. Tudo isso é cinégica, isto é, (como o glossário de Cardoso explica) relativo a caça, mas na mesma página há um conceito “cinegenetico” o passado, toda a vida de Caipora volta para ele num momento de depressão em uma nuvem de vinhetas. Inaiá, capturada por uma tribo inimiga, é mais uma vez salva e seu aliado índio Cham Kam, com muitas mortes de índios e batalhas regulares onde os brancos são sempre superados em número.
A história reaparece em 1905, no capítulo 38, trocando a litografia pelo estilo pena e tinta na reprodução fotográfica. Há outra batalha mortal com uma onça e depois de muitos capítulos e outro suspense em encosta, a cena volta para a cidade onde a namorada de Zé espera ansiosamente seu retorno. Uma equipe de busca é enviada, Inaiá é salva de novo e de novo, agora como antes mostrando a nudez da parte superior do corpo, com amplos seios o que jamais seria permitido para uma mulher branca. Uma vez na cidade, naturalmente, ela e Cham Kam tem de usar roupas decentes apropriadas ao deu novo papel como seus serventes, eles desaparecem quando Zé se envolve em novas aventuras. No fim ele é preso (seria esta a intenção?) acusado de um “grande crime”. A qualidade do desenho em uma parte da reprodução (seria de uma página original muito danificada?) deteriora tão acentuadamente nos últimos capítulos que se imagina se Agostini teve algo a ver com isto.

*a ideia de postar toda a tradução neste blog foi do também pesquisador Quiof - do blogue Quadripop.

23 dezembro 2019

Pequena Cronologia da HQ - parte 14

Segue a série...

1700

Peça teatral chinesa - autor desconhecido - data exata desconhecida - século XVII - dinastia Qinq ou Ming

Via British Museum
1705

Eleição de um Papa (da morte ao Conclave) - artista:   Hendrik Elandt (16?? - 1705 (?) - Holanda)

Via Real Museu Holandês
1708

Retrospectiva do ano de 1700 - artista:  Caspar Luyken (1672 - 1708 - Holanda)

Via Real Museu Holandês
1710

Guerra da Sucessão Espanhola - trabalho em várias pranchas - artista:  Pieter Schenk (1660 - 1711 - Alemanha/Holanda)

Via Real Museu Holandês
1713

Tratado de Utrecht - artista:  Johannes Drappentier (1669 ? - 1713 ? - Holanda - a prancha foi feita na Inglaterra)

Via Real Museu Hoalndês